A crise da Varig ainda não terminou mas já deu demonstrações
monumentais do quanto o Brasil carece de instituições confiáveis,
capazes de colocar os interesses da sociedade acima de interesses
privados. Justiça, governo federal e imprensa deram vigorosas
demonstrações de incompetência e despreparo ao lidar com grupos
organizados e articulados para a obtenção de vantagens através da
manipulação de informações. O desempenho lastimável da Justiça e
do governo federal no que diz respeito à Varig mereceria uma análise
mais profunda, mas é sobre a atuação da imprensa que vale a pena
refletir neste momento. Sistematicamente os jornais brasileiros, com
raras exceções, nomearam a empresa NV Participações, que usa o nome
fantasia de "Trabalhadores do Grupo Varig" (TGV), como "um grupo que
representa os trabalhadores da Varig". Essa foi, sem dúvida alguma, um
dos maiores exemplos do profundo amadorismo de uma imprensa que acredita
que os nomes realmente nomeiam aquilo que nomeiam. A julgar por toda
essa ingenuidade, haverá entre os jornalistas que cobrem o caso da
Varig certamente aqueles que acreditam que a Embratel, por se chamar
Empresa Brasileira de Telecomunicações, continua a ser uma empresa
nacional. O TGV ou a NV Participações, que são a mesma coisa, não
representa os trabalhadores da Varig. A origem deste grupo remonta a
2001, quando um grupo de ex-funcionários da Varig, notadamente pilotos
que foram demitidos da empresa, articulou a tomada do controle das
associações de pilotos, comissários e mecânicos da Varig, em
estreita associação com consultorias de empresas com nomes como GGR
Finance e Invest Partners. A tomada de decisão no TGV ou NV
Participações é feita nessas consultorias e não nas associações
de trabalhadores que elas controlam já há alguns anos. Esse processo
de decisão reúne consultores e advogados pagos pelas consultorias, e
não pelas associações de trabalhadores. Exemplo da Eron. Há cerca de
um ano, este grupo, aproveitando-se de brechas no estatuto do Sindicato
Nacional dos Aeronautas, convocou uma assembléia de trabalhadores para
eleger um comitê que representaria os funcionários da Varig no
processo de recuperação judicial da empresa. A assembléia, que não
chegou a ser realizada, teve seus "resultados" publicados em edital no
Diário Oficial um dia antes da data marcada para a realização do
encontro, evidenciando claramente a fraude. No entanto, a despeito de
todas as evidências de manipulação, a Justiça do Trabalho do Rio de
Janeiro negou ao Sindicato Nacional dos Aeronautas uma liminar na qual a
entidade questionava a validade de uma assembléia que nunca foi
realizada - e que transferiu para uma empresa a representação dos
trabalhadores da Varig.Conforme já denunciei em outro artigo,
publicado pela Gazeta Mercantil ("Varig, a caminho de se tornar a Enron
do Brasil", 5/6/2006, coluna "Opinião"), a GGR Finance e a Invest
Partners assinaram contratos com o TGV e a Varig pelos quais se
comprometem a conseguir recursos para a Varig mediante a cobrança de
porcentagens que variam de 2,5% a 10%. Ou seja: as consultorias GGR
Finance e Invest Partners nunca tiveram como objetivo recuperar a
Varig. Sua principal motivação, claramente definida nos contratos que
assinaram com o TGV e a Varig, é a de ganhar comissões sobre recursos
aportados à empresa. Apesar de todas as evidências de que se tratavam
de grupos que não visavam a recuperação da empresa, mas lucrar com
seu infortúnio, o TGV continuava defendendo a transformação do fundo
de pensão dos trabalhadores da Varig, o Aerus, que tem em caixa cerca
de 2 bilhões de reais, em "investimento direto na Varig". Se isso
tivesse se materializado dois meses atrás, as consultorias que se
relacionam com a TGV teriam lucrado algo ao redor de 200 milhões de
reais às custas das complementações de aposentadorias de milhares de
trabalhadores. O que impediu esse golpe, que em muito se assemelha ao
golpe que destruiu a Enron e o fundo de pensão dos trabalhadores da
empresa elétrica dos EUA, foi a intervenção da Secretaria de
Previdência Complementar no Aerus, brecando quaisquer saques de
recursos.Interesse único. Todas essas informações, que são públicas,
não foram debatidas pela imprensa em momento algum durante a crise da
Varig. No leilão de venda da empresa, a única proposta feita pela Varig
partiu do TGV. Nesse momento, o
festival de desinformação da imprensa levou a sérias distorções
acerca das notícias que eram veiculadas, distorções estas que os
operadores da Bolsa de Valores de São Paulo não engoliram: assim que
a Bovespa tomou conhecimento de que a única proposta era a do TGV, a
cotação das ações da Varig despencou 60% em um único dia.
Chegou-se a dizer que se tratava de um "preconceito contra os
trabalhadores da Varig", uma afirmação que menospreza a inteligência
do pessoal da Bovespa. Como os investidores lêem a Gazeta Mercantil,
eles já sabiam que os grupos que se articulavam à sombra da TGV eram
consultorias que estavam manobrando para obter comissões com a venda
da empresa - uma informação que torna evidente, para qualquer pessoa
com cérebro, que a tal oferta não era séria, não seria honrada,
daí a manifestação dos investidores da Bovespa de desvalorizarem as
ações da Varig. Como se vê, os investidores da Bovespa são mais
jornalistas do que os jornalistas que cobriram o caso. Eles sabiam de
coisas que os jornalistas nunca se deram ao trabalho de verificar, o
que poderiam ter feito lendo jornais. O juiz Luiz Roberto Ayoub, da 8ª
Vara Empresarial do Rio de Janeiro, que se autointitulava "anjo da
guarda da Varig", revelou-se na verdade o "anjo da morte" da empresa ao
aceitar a oferta da empresa NV Participações. Isso porque ele sabia,
há muito tempo, quais eram as reais motivações desse grupo, através
de repetidas denúncias feitas diretamente a ele pelos sindicatos que
reúnem a categoria, o dos Aeronautas e o dos Aeroviários. No entanto,
revelando pouca coragem, ele aceitou a proposta condicionando sua
aprovação ao depósito dos 75 milhões de dólares que a Varig
necessitava de capital de giro até a sexta-feira (23/6). Tanto o juiz
Ayoub quanto o TGV, a torcida do Flamengo e a do Corinthians sabiam que
a NV Participações não pretendia fazer o depósito porque o interesse
dessa empresa é apenas um: o de saquear a Varig. Falsidade ideológica o
que se seguiu foi um festival de hipocrisia que qualquer jornalista com
um mínimo de competência teria desvendado. O Sindicato dos Aeronautas
publicou repetidas denúncias contra o TGV e, inexplicavelmente, teve
seus boletins e seu site na internet censurados pela Justiça
Trabalhista do Rio de Janeiro, a mesma que validou uma assembléia de
trabalhadores que não existiu. O TGV correu ao BNDES para pedir um
empréstimo para poder viabilizar sua oferta. Com que objetivo? A
comissão, é claro. Vendo a porta do BNDES se fechar, iniciou um
autêntico leilão paralelo, conversando com "investidores" que
ninguém conhecia na tentativa de conseguir os recursos para fazer o
depósito do valor necessário à concretização do negócio. Com que
objetivo? A comissão, é claro. Dois dias antes do final do prazo
estabelecido pelo juiz, um representante do TGV, o Sr. Márcio Marsilac
chegou a dizer que talvez não conseguisse os recursos necessários até
o prazo final, mas que "um empréstimo-ponte do BNDES resolveria a
questão".Claro que resolveria a questão: um empréstimo de BNDES, no
valor de 75 milhões de dólares, renderia às consultorias que
controlam o TGV uma comissão da ordem de 7,5 milhões de dólares.
Mas, e quanto à salvação da Varig? É evidente que ninguém, à
exceção de um grupo de trabalhadores abnegados, está muito
preocupado com isso. Nenhum jornal denunciou a censura sofrida pelo
site do sindicato dos trabalhadores. Nenhum jornal se perguntou por que
um grupo que afirmava ter os recursos necessários à viabilização de
sua proposta estava recorrendo ao BNDES para obter empréstimos. Nenhum
jornal questionou o juiz Ayoub para o fato de que o TGV estava
promovendo um leilão paralelo, num flagrante desrespeito à Justiça,
que imaginava já ter resolvido o problema ao qualificar a oferta da
TGV.Vencido o prazo do depósito, ocorreu o que qualquer ser pensante
sabia que ia ocorrer. O tal TGV desapareceu, evidenciando claramente o
caráter fraudulento de sua ação. O grupo, que articulou uma proposta
fraudulenta de compra da Varig, oferecendo recursos que não tinha, não
foi sequer molestado pela Justiça, que deveria acionar seus
responsáveis pelos enormes prejuízos que causaram à Varig, fazendo
uma oferta de compra que não podiam honrar. No Código de Processo
Civil isso é crime e se chama falsidade ideológica. Questionado a
respeito por um jornalista, o juiz Ayoub disse que precisava "avaliar
melhor essa questão". Bem, se um juiz, que é professor de Direito da
FGV, não sabe o que é falsidade ideológica, o que saberemos nós, os
pobres mortais? À altura do Brasil. Passado o fracasso do leilão, a
VarigLog formalizou uma proposta pela Varig. Os jornais esqueceram o
TGV, que desapareceu de cena. Os prejuízos que esse grupo causou à
Varig e aos trabalhadores da empresa são incalculáveis. Quem vai
acioná-los? O despreparo da Justiça, da imprensa e do governo federal
no enfrentamento de grupos bem assessoradas por advogados e consultores
está criando as condições para a fabricação de uma monumental
fraude envolvendo a Varig e os enormes recursos que a empresa tem a
receber, que podem terminar nas mãos de pessoas que não têm
interesse na salvação da empresa. A Varig não é uma empresa falida.
Na verdade, a empresa é uma mina de ouro. A companhia aérea tem
créditos a receber do governo federal e de vários governos estaduais,
já consignados pela Justiça, que alcançam cerca de 6 bilhões de
reais, que serviriam para pagar dívidas e manter a empresa operando,
ajudando a preservar empregos e, principalmente, a oferta de opções
aos passageiros, que vão terminar pagando caro pela concentração de
mercado que o fim da Varig vai acarretar. Mais ainda: o fundo de
pensão dos trabalhadores da empresa tem cerca de 2 bilhões de reais
em caixa, recursos estes que a NV Participações (TGV) já recomendou
transformar em "investimento na Varig", sacrificando a complementação
de aposentadoria de milhares de aposentados. A pergunta que é preciso
responder é a seguinte: se a sociedade podia contar com a imprensa
para denunciar os desmandos da Justiça e do governo federal, o que
acontece quando a imprensa se omite e passa a cobrir um evento com um
grau de profundidade zero, sendo iludida e manipulada a ponto de chamar
de "trabalhadores" um grupo de consultores interessados em lucrar com a
crise da Varig? Que os padrões de qualidade, seriedade e profundidade
da imprensa brasileira têm andado relativamente baixos, isso muita
gente já sabe. A crise da Varig, no entanto, evidenciou que a imprensa
brasileira pode ser facilmente manipulada por grupos de interesses com
objetivos fraudulentos - o que, em última análise, é algo terrível
de se constatar porque nos coloca diante de uma questão de difícil
resposta: em caso de desmandos, quem vai defender a sociedade? As
instituições brasileiras, entre elas a Justiça, a imprensa e o
governo federal, precisam demonstrar que estão à altura do país e
atuar para que o desfecho da crise da Varig não beneficie apenas
alguns em detrimento de toda a sociedade.
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